Memórias
O frio era de congelar os ossos, o junho ainda estava no início e se continuasse ventando, chovendo e nevando, o frágil telhado poderia não aguentar.
Porém, nada disso nos abalava, nem tirava o encantamento de ser criança. Nem mesmo o vento frio e úmido que adentrava pelos buracos das paredes, ou a falta de roupas quentes, ou a inexistência de brinquedos nos deprimiam, nenhuma reclamação.
A mãe não se lamentava enquanto cozia no fogão a lenha, acariciando a grande barriga na espera do sexto filho. “Se for guri vai se chamar Adão como o avô”.
O fogo no fogão esquentava a pequena cozinha de madeira bruta, enquanto muitas cabecinhas esperavam pela refeição, simples, porém muito gostosa. Nutritiva, pois geralmente era arroz com feijão e uma mistura de carne de frango, ou ovo frito e salada verde. Cardápio aprovado por qualquer nutricionista da atualidade, ainda mais que comíamos peixe com certa frequência, pois o turvo ficava no quintal da casa e o pai era um exímio pescador.
Para de tarde, pão com melado ou gemada, para a janta, polenta com leite e sobras do almoço. Leite nunca faltava, pois duas vaquinhas bem tratadas se revezavam na produção o ano todo. Acho que nos alimentávamos melhor que muita gente rica, pois as "madames" têm preguiça de fazer comida e compram muita coisa pronta.
O sexto filho nasceu na véspera de são João e por ser menina não recebeu o nome do avô, mas uma homenagem ao santo, e assim foi batizada como Joana.
Férias na escolinha, restava brincar com os irmãos, livres o dia inteiro, mesmo quando garoava. Não tinha hora para entrar em casa, nem limites para percorrer, ninguém chamava ou ia atrás, pois quando a fome batia era certo que nós estávamos em casa.
Embora o turvo, bufando depois das fortes chuvas, era um perigo para a criançada, ninguém se preocupava. Era divertido ver a correnteza levando troncos e pequenos animais, teve uma vez que ele saiu da caixa e veio parar no terreiro de casa. Eu tinha o mar no meu quintal.
Havia sonhos? Acho que não, pois não conhecíamos outra realidade. Éramos infelizes? Não, pois tudo era tão natural. Tão natural quanto pegar o passarinho morto da geada, depenar e levar para vó Antoninha fritar, a mãe do João Maria. Maria é nome de mulher, simplesmente eu refletia sem comentar.
Felizmente o inverno é só uma estação do ano que passa com a chegada do outono, e quando vinha o verão a vida se tornava uma festa, banho de rio, passeios a pé na casa dos parentes quilômetros de distância. Saíamos bem cedo, quando o sol ainda não estava quente e voltávamos de tardinha, correndo pelas estradas de chão.
De vez em quando uma bala, uma bolacha feita em casa, que luxo!
A noção de futuro, sonho, esperança de realizar algo, mudar de vida, só veio anos depois, quando nos mudamos para uma vila, onde já havia luz elétrica. O que fez despertar esses sentimentos? Acho que foi a escola da cidade, o convívio com outras pessoas... E a consciência de que existiam outras possibilidades e que nós nos contentávamos com pouco. Se hoje eu sou mais feliz, não sei, é outra realidade. Mas é claro que jamais conseguiria viver daquele jeito novamente...
A percepção de que existiam pessoas ricas, fez-me entender que nós éramos muito pobres. Mas ninguém era culpado disso e nós não exigíamos dos pais o que eles não podiam nos dar. Quanta diferença das crianças de hoje que ganham o que querem, muito mais do que precisam, mas nunca estão contentes.
Fome, eu nunca passei, meu pai e minha mãe eram muito trabalhadores e dedicados a família. Passei muita vontade de comer coisas diferentes que via meus colegas comendo, sorvete, chocolate, sanduíche de mortadela e salgadinho, mas não morri por isso.
No início eu achava que todo mundo era pobre como nós, embora eu não tivesse consciência de que nós éramos tão pobres. Depois veio a percepção de que alguns tinham muito e não porque trabalhava mais que minha família.
Então veio a vontade de mudar de vida, o exemplo de meu pai que voltou a estudar e de minha mãe que nunca se abateu frente às dificuldades, foram elementos importantíssimos.
Deus não dorme. A mudança para a vila se deu dias antes da casinha em que morávamos cair. A casa caiu literalmente, dizem que nem foi obra de uma terrível tempestade, foi apenas um vento mais forte e tudo estava no chão. Felizmente nenhuma família habitava aquela velha morada na ocasião.
Hoje, superamos as dificuldades estudando e trabalhando. O que aprendemos com tudo o que passamos, já que passamos, são os exemplos de vida, a união da família, a honestidade, a simplicidade e a força para lutar e modificar, melhorar nossa própria vida. Felizmente, não foi preciso ir morar na cidade grande, pois atingi meus objetivos morando em uma simples vila do interior, mas sei que meus filhos vão querer mais.